Projetos

O Laboratório de História Antiga da UFRJ (LHIA) desenvolve projetos de pesquisa e extensão voltados ao estudo das sociedades do Mundo Antigo, articulando ensino, produção científica e formação discente em nível de graduação e pós-graduação.

Os projetos abaixo refletem as principais linhas de investigação do laboratório e contam com a participação de docentes, pesquisadores e estudantes, bem como com apoio de agências de fomento nacionais.

Projetos de Pesquisa em Andamento

A Antiguidade e o sertão: heróis épico-rosianos

Coordenação: Lorena Lopes
Período: 2022 – atual
Financiamento:

A morte de heróis é um tema permanente no sertão rosiano. Ela coroa a valentia, a honra, tornando-os, finalmente heróis. João Guimarães Rosa se interessa por essa lógica, qual seja a de um fim glorioso capaz de arrematar as grandes ações dos grandes jagunços em especial em “A hora e a vez de Augusto Matraga” e em Grande Sertão: Veredas. Sua (re)leitura da Ilíada e da Odisseia, em 1950, e as anotações que o escritor faz sobre os heróis não deixam dúvida que ele quis que seus heróis dialogassem com os da tradição. Somam-se a isso as conhecidas histórias de famosos matadores do sertão histórico, sobre o qual Rosa pedia a seu pai para lhe contar mais. A morte e a violência são temas, ademais, que impregnam a atenção e a imaginação nos anos que antecedem sua (re)leitura de Homero, quando, em Hamburgo, ele é testemunha da Segunda Grande Guerra. Várias frentes, portanto, parecem contribuir para a criação do sertão rosiano: onde o herói mata para não morrer e onde seu corpo deve ser cuidado, chorado e sepultado, mas, não necessariamente ele poderá ser. A presente pesquisa pretende, pois, observar e discutir de que forma João Guimarães Rosa desenha a figura do herói e em quais aspectos essa figura atualiza o herói épico, a partir, sobretudo, da experiência de guerra do autor — seja a guerra do sertão de onde veio, seja a guerra alemã da qual foi testemunha. Deseja-se, por fim, pensar essa atualização a partir da ideia de uma possível teoria da falsificação rosiana, em que falso, verdadeiro, inventado não parecem ser forças opostas.

Sônia Viegas, o sertão trágico de Guimarães Rosa e a Grécia Antiga

Coordenação: Lorena Lopes
Período: 2022 – atual
Financiamento:

Em 1977, a filósofa brasileira Sônia Viegas (1944-1989) defendeu sua dissertação de mestrado intitulada *A palavra poética e a palavra filosófica no Grande Sertão: Veredas*. O texto recebeu, em 1984, o prêmio “Cidade de Belo Horizonte”, na categoria “Ensaio”. Em 1985, foi publicado pelas Edições Loyola com o título *A vereda trágica do Grande Sertão: Veredas*. O trabalho foi novamente apresentado ao público no ano de 2009, na coletânea que organiza os escritos da filósofa em três livros (*Escritos: filosofia e arte*; *Escritos: filosofia viva*; *Escritos: vida filosófica*) — uma homenagem de Marcelo Marques (também professor no Departamento de Filosofia da UFMG, onde antes fora aluno de Viegas) à pensadora brilhante, cuja vida foi muito rapidamente interrompida aos seus 45 anos, em 1989. Este projeto pretende analisar de que forma o narrador de *Grande Sertão: Veredas*, publicado em 1956, e, especialmente, a leitura que, em 1977, a filósofa Sônia Viegas faz do romance de João Guimarães Rosa apresentam e lidam com o problema da recepção clássica.

Um estudo comparado dos sepultamentos bretões da Idade do Ferro

Coordenação: Pedro Peixoto
Período: 2022 – atual
Financiamento:

O projeto busca investigar sepultamentos humanos encontrados em solo bretão durante a Idade do Ferro (séculos VIII a.C. — I d.C.). Embora os bretões antigos sejam retratados de modo relativamente coeso e monolítico pelos autores gregos e romanos, as comunidades bretãs da Antiguidade jamais se reconheceram sob um mesmo rótulo ou, tampouco, apresentavam uma unidade política. Ao contrário, comunidades das mais variadas coexistiam e produziram respostas heterogêneas a questões comuns, como, por exemplo, a morte. O projeto busca, assim, examinar práticas de sepultamentos (inumações, cremações e deposições em ambientes aquáticos), provenientes de sítios funerários de Yorkshire, Hampshire, Cornualha, Dorset, Wessex, Pembrokshire, Cheshire e Lothian, comparando, regiões do sul inglês, País de Gales, norte inglês e leste escocês. A investigação é desenvolvida com base em materiais catalogados após escavações realizadas desde o séc. XIX ao XXI, em cerca de 30 sítios. O objetivo é principalmente entender como atributos de gênero, reconhecimento social e importância eram forjados (e modificados) ao longo do primeiro milênio a.C. O projeto busca também contribuir para o diálogo e a aproximação entre a Arqueologia e a História, refletindo criticamente sobre limites tradicionalmente postulados (como a noção de Pré-história) e investigando os rendimentos teóricos do uso de registros arqueológicos para a formulação de interpretações críticas sobre o passado.

Virilidades helênicas: atletas atenienses nos séculos V e IV a.C.

Coordenação: Fábio de Souza Lessa
Período: 2023 – atual
Financiamento: CNPq e FAPERJ

Neste projeto, propomos compreender como as práticas esportivas atuaram na formação das noções de virilidade e masculinidade presentes na idealização dos cidadãos atenienses do período clássico (séculos V e IV a.C.). Articularemos a relação entre competição atlética, limites da violência e obediência às regras, objetivando discutir a formação da cidadania em Atenas. Defenderemos que os agônes atléticos se constituíram em um lócus privilegiado para a construção da masculinidade, pois competição, agressividade e combates são considerados atributos dos grupos masculinos. As imagens áticas pintadas em suporte cerâmico serão a documentação essencial para o presente estudo. É importante ressaltar que os textos imagéticos dialogarão com os literários de diferentes gêneros.

Uma Minerva “carioca” e “brasileira”: o percurso histórico imagético do emblema da UFRJ

Coordenação: Regina Maria da Cunha Bustamante
Período: 2024 – atual
Financiamento:

Em 15 de setembro de 2025, a Minerva do emblema da originária Universidade do Rio de Janeiro (URJ), atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), completou 100 anos. A antiga divindade mediterrânea foi a escolhida para representar a nossa instituição acadêmica. Partimos da premissa de que diálogos imagéticos podem construir histórias, expressar ideias e transmitir valores, que forjaram uma autoimagem de como a universidade se via e queria ser vista. Interessa-nos a interação e a comunicação por meio de imagens, ou seja, como diferentes imagens se relacionam, se complementam ou se confrontam, criando novos significados e narrativas. Por meio deste estudo, pesquisamos como o material clássico foi transmitido, “traduzido”, fragmentado, interpretado, “reescrito”, repensado e representado – em suma, as suas recepções na criação do emblema universitário em foco. Desta forma, objetivamos compreender e analisar a criação da Minerva “carioca” da então Universidade do Rio de Janeiro, que foi redefinida em meados do século XX quando lhe foi acrescida uma camada “nacional”, ou seja, “brasileira”. Abordamos este percurso, identificando e analisando as diferentes recepções pelas quais o emblema universitário passou ao longo desse período no processo de construção por sua comunidade acadêmica, visando iluminar o diálogo entre a identidade visual da UFRJ com o passado clássico.

Erínias do Sul: a Antiguidade em nossas violências

Coordenação: Lorena Lopes
Período: 2025 – atual
Financiamento:

Este projeto se propõe a trabalhar a atualidade de três peças do teatro grego de 458 a. C., *Agamêmnon*, *Coéforas* e *Eumênides*, que compõem a *Oresteia*, visando a: 1 – dar a conhecer o texto original em tradução como fonte histórica para pensar outra realidade, a da Grécia Antiga, muito anterior no tempo e distante geograficamente da nossa, com os alunos das Oficinas de Ensino de História Antiga da UFRJ, também estagiários da educação básica, com os professores e supervisores desses estagiários da educação básica que tenham interesse em trabalhá-las em sala de aula e com os alunos desses professores e estagiários; 2 – estimular a reflexão da atualidade dessas peças gregas, levando à investigação de fontes contemporâneas que explorem o tema da violência, vingança e justiça em nossa realidade pelos alunos da educação básica participantes do projeto; 3 – produzir material de divulgação científica (podcast de três episódios) para explorar a reflexão feita pelas peças, aplicando-as à Antiguidade Grega, deslocando-as para a realidade brasileira e, ainda mais especificamente, para a realidade do Rio de Janeiro.

Relações de gênero, erotismo e recepção da Antiguidade na literatura do século XIX

Coordenação: Pedro Peixoto
Período: 2025 – atual
Financiamento:

O projeto examina a construção de sentidos de eroticidade e de valores de gênero elaborados a partir da evocação de referenciais da Antiguidade. A proposta toma como objeto de investigação obras escritas no século XIX, em particular a prosa ficcional produzida em contextos de língua germânica, inglesa e francesa. Partindo de uma análise comparada, o objetivo principal da pesquisa é evidenciar e analisar a formulação de elementos narrativos e enredos que, de maneira direta e indireta, fazem uso discursivo da Antiguidade, bem como compreender como tais recepções se tornam parte constitutiva dos processos de formulação, reafirmação e subversão de valores de gênero e de erotismo durante o século XIX, sobretudo em sua segunda metade. Uma atenção particular é direcionada aos topoi literários relacionados à representação da femme fatale em contraste com a femme fragile, ao mito de Pigmaleão, às elegias romanas e às releituras da Weibermacht.

Projetos de Extensão

Projeto Universidade-Escola: Entre mitos e heróis na Antiguidade

Coordenação: Fábio de Souza Lessa
Período: iniciado em 2012 a partir de experiências anteriores
Financiamento: FAPERJ

Atendendo a um dos objetivos do LHIA, qual seja, integrar a pesquisa ao ensino, tanto no terceiro grau quanto nos ensinos fundamental e médio, a equipe do Laboratório projetou uma quinta edição do curso desenvolvido durante o primeiro semestre de 1997 e de 1998, na E.M. Benjamin Constant (1ª CRE), e, no segundo semestre desses mesmos anos, na E.M. Nestor Victor (10ª CRE), com proveitosos resultados em ambas as escolas. Já nos anos de 1999, 2000 e 2001, nas Escolas Municipais Alzira Araújo e Rosária Trotta (ambas pertencentes a 9ª CRE), a temática do Projeto foi alterada para Pensar Diferenças: Nós e os Antigos. No ano de 2002, na Escola Municipal Rivadávia Correia (1ª CRE) a temática foi Jogos e Festas. No ano de 2003, o tema foi Mitos e Ritos, na Escola Municipal Celestino Silva (1ª CRE). Para este ano, propomos a temática Entre mitos e heróis na Antiguidade. Analisaremos o grau de participação das sociedades da Antiguidade na construção de seus mitos e nas práticas rituais e como estes mitos e ritos atuavam como agentes que propiciavam a coesão e a integração sociais, marcando as fronteiras entre as relações de identidade e alteridades sociais. Em 2026, estaremos retornando à 10ª CRE, em Santa Cruz.

Viva+cidade: descobrindo o neoclássico carioca

Coordenação: Deivid Valério Gaia e Regina Maria da Cunha Bustamante
Período: 2023 – atual
Financiamento:

O projeto mobiliza saberes da História da Antiguidade, do Brasil e da Arte, aplicando a metodologia da Educação Patrimonial para estudar o patrimônio neoclássico do Rio de Janeiro a partir da intersecção com a Antiguidade, centrando-se nas recepções e expressões da cultura antiga — arquitetura, paisagismo, esculturas, pinturas, literatura e objetos — manifestas no espaço urbano carioca.

Objetiva-se:
1) elaborar e realizar atividades de campo / vivências a partir de roteiros temáticos / cartográficos — construídos coletivamente — na urbe carioca, pautados em observação, registro, exploração e apropriação dos espaços em foco;

2) formular coletivamente subsídios básicos e ferramentas a serem compartilhados com a comunidade, por meio de incursões no contexto urbano, fundamentados no diálogo, na troca de saberes e experiências;

3) sensibilizar as/os participantes a se apropriarem do conhecimento teórico e prático da proposta, aplicando-o ao seu espaço mais imediato, para que possam reconhecê-lo, divulgá-lo e se reconhecerem nele, fomentando assim a importância da preservação do patrimônio cultural através da compreensão, valorização e respeito à diversidade presente no patrimônio cultural da nossa cidade, o que contribui para a formação de cidadãos críticos.